O crescimento verde é umha mistificaçom absoluta

Philippe Bihouix, engenheiro especialista em metais. (CC BY-ND 4.0)

Philippe Bihouix, engenheiro especialista em metais. (CC BY-ND 4.0)

O autor de A era das tecnologias simples: Rumo a umha civilizaçom tecnicamente sustentável, o engenheiro Philippe Bihouix alerta sobre o esgotamento crescente dos recursos metálicos. E salienta que, devido à sua necessidade de metais raros, as energias renováveis nom som a panacéia: umha energia ilimitada e limpa é um mito, é preciso… economizar, reciclar, relocalizar. Umha entrevista energizante.

Entrevista a Philippe Bihouix por Anthony Lawrence para Reporterre e publicada o 16 de Junho de 2015.
Traduçom para o galego de José Ramom Flores das Seixas. 2 primeiras figuras por José Ramom Flores das Seixas (CC).

 

Reporterre: Cinco anos após o lançamento de seu livro Qual futuro para os metais?, segue a ser actual o seu diagnóstico?

Philippe Bihouix: O meu diagnóstico relativo à rarefacçom de metais continua a ser válido. Isso nom vai mudar, porque a parte acessível e explorável dos recursos minerais e metálicos é limitada. Estes recursos podem ser muito abundantes, mas som finitos, como o som os combustíveis fósseis –petróleo, carvom, gás– nom renováveis, ou o podem ser os recursos florestais, pesqueiros e outros, se os explorarmos a umha velocidade superior a sua taxa de renovaçom. Tendo umha quantidade finita de recursos, um pico de produçom, seguido dum declínio, é inevitável. É algo matemático. Da mesma maneira que há um pico do petróleo, haverá um pico de energia e, umha vez que a produçom de energia e a exploraçom de recursos estám ligadas, no fim haverá um pico de todo.

Para alguns isto semelha inaceitável, agarram-se ao facto de a energia solar incidente ser vários milhares de vezes superior às necessidades energéticas da humanidade. Chegaria entom com desenvolver a fotovoltaica, a solar electrotérmica, a eólica e outras energias renováveis. Seria apenas umha questom de vontade política, dos recursos financeiros a mobilizar, da luita contra os lobbies petróleos e nucleares. O mesmo vale para os metais. Os geólogos explicam-nos que os recursos metálicos som abundantes, e se reconhecem que a sua qualidade e acessibilidade estám a reduzir-se, e para salientar os benefícios das novas técnicas de exploraçom. Tem-se entom a impressom que nom há nengum problema.

Ora, a produçom energética e a exploraçom dos recursos estám relacionadas. Precisa-se cada vez mais energia já que os metais som cada vez mais difíceis de extrair: o teor de metal no minério tende a diminuir e as minas que se abrem hoje em dia tenhem menor concentraçom do metal do que aquelas que fecham após a exaustom… Precisam-se também mais metais para produzir a mesma energia: é necessário multiplicar o número de poços para explorar o gás de xisto, por exemplo.

Executiva agressiva a correr numha roda de hamster. (CC – BY 4.0)Para entender o problema é necessário fazer umha abordagem sistêmica destas questões, tal e como fijo Dennis Meadows –um dos autores do relatório ao Clube de Roma sobre o crescimento– na década de 1970. Na minha opiniom o sistema esta-se a tensionar cada vez mais: a roda-de-hamster energético-geológica e mineira gira cada vez mais rápido, engolindo cada vez maiores quantidades de materiais e energia para manter a produçom. Este processo “extrativista” deverá durar ainda algumhas décadas, infelizmente, com conseqüências ambientais multiplicadas e agravadas.

Por que explode a demanda global de metais?

Mina de ouro a céu aberto em Kalgoorlie, Austrália. (Da Wikipedia CC BY-SA 3.0)

Mina de ouro a céu aberto em Kalgoorlie, Austrália. (Da Wikipedia CC BY-SA 3.0)

A explosom, relativamente recente, da demanda de metais é devida principalmente a dous fenómenos. Por umha banda, para os “grandes” metais industriais (ferro, alumínio, cobre, zinco, chumbo…), a industrializaçom, urbanizaçom e motorizaçom dos países emergentes, China e Índia em particular. Por outra banda, para os “pequenos” metais especializados, o desenvolvimento das novas tecnologias. Há 40 anos, utilizavam-se menos de trinta metais à escala industrial para fabricar produtos quotidianos. Também se empregavam alguns outros, mas em quantidades menores, em sectores altamente especializados, como o nuclear, o fabrico de armas, etc.

Hoje em dia tenhem uso corriqueiro uns sessenta metais: o gálio é usado nos díodos emissores de luz (LED), índio nos monitores planos, cobalto nas baterias de lítio, etc. Na realidade, todos estes “novos” metais eram extraídos anteriormente, muitas vezes como subprodutos da exploraçom industrial dos grandes metais históricos –o índio como um subproduto do zinco, o gálio do alumínio– mas nom eram refinados, mesmo eram considerados como impurezas.

Mas na actualidade a indústria tem-lhes encontrado usos novos. Temos “electronificado” as nossas vidas, enquanto antes estávamos basicamente rodeados de aparelhos eléctricos, o que é muito diferente. Com a electrónica e, a seguir a microinformática, aparecérom novas necessidades e, portanto, novas restrições de produçom: os produtos som mais complexos, devem ser mais pequenos, mais leves, mais fortes, mais transportáveis, etc.

Por exemplo, necessita-se empregar tântalo, bastante raro, para fabricar condensadores menores dos feitos com alumínio, muito mais abundante. O germânio, um subproduto do zinco, utiliza-se para dopar as fibras ópticas, obtendo atenuações muito baixas. Também se usam no sector das energias renováveis: o neodímio, por exemplo, que tem umhas características magnéticas por unidade de peso interessantes, é o material preferido na elaboraçom dos imáns para os aerogeradores de alta potência.

Quando se estuda em profundidade o conteúdo dos produtos manufacturados, e o seu processo de fabricaçom, há sempre nalgum ponto da cadeia, a exploraçom de recursos minerais e metálicos, em especial para as telecomunicações e a informática. A economia nunca é imaterial.

Que pensa das energias renováveis e das chamadas “tecnologias verdes”?

Nom som de modo algum contra a energia renovável. Porém som contra o mito dumha energia que seria ilimitada e limpa. As “tecnologias verdes” também consomem recursos, empregam metais dos mais raros, e som em geral pouco recicláveis. Nas energias renováveis podemos achar tanto o melhor como o pior. Os painéis fotovoltaicos de silício –um metal muito abundante, a crosta terrestre tem um 27% de silício– som a priori mais benéficos do que os painéis multicamada de alta eficiência. Porém, mesmo um painel de silício contém outros metais, tais como cobre ou prata nos contactos eléctricos, por exemplo. O mesmo se passa nos aerogeradores, cujos conteúdos em metais dependem do desenho, potência, etc. Umha soluçom seria orientar a pesquisa científica, para ter em conta os recursos utilizados, e nom unicamente o rendimento, físico ou económico.

Mas o problema é mais profundo. A França, por exemplo, dum lado desenvolve um programa de energia eólica marinha, mas polo outro inça-se de painéis publicitários e ecráns planos energívoros, e congratulamo-nos com o desenvolvimento de grandes centros de processamento de dados! Na realidade, o desenvolvimento das energias renováveis nom permite, nem permitirá, manter o nosso nível alarmante de gasto energético e absorver o crescimento contínuo do nosso consumo material.

É absurdo acreditar que podemos reduzir as emissões de gases de efeito estufa significativamente sem reduzir maciçamente o nosso consumo energético. Deste ponto de vista, o “crescimento verde”, que evita a questom do nosso estilo de vida, é umha farsa. Os números o mostram facilmente.

O seu último livro trata das “low tech”. Isso que vem sendo?

l-age-des-low-tech-2014-philippe-bihouixÉ um jogo de palavras a zombar das “high tech”, a miragem das tecnologias salvíficas. Neste livro, eu coloco as seguintes questões fundamentais: por que produzimos? que produzimos? e como é que produzimos? No meu ver já agora poderíamos produzir menos sem diminuir a nossa qualidade de vida, mesmo ao contrário. Por exemplo, poderia-se suprimir o milhom de toneladas de brochuras publicitárias que som distribuídas anualmente. Poderia-se estender a recauchutagem de pneus para todos os veículos, como já se fai com os aviões e os camiões. Poderíamos restaurar o pagamento dum depósito por embalagem, para favorecer a sua reutilizaçom, e também incentivar a venda a granel. Poderia-se ir diminuindo progressivamente a velocidade máxima permitida, refrear os motores, proibir os carros potentes de mais. O automóvel “limpo” nom existe, mas entretanto a gente toda vai se afazendo a bicicleta, a viatura de 1l/100km está à mão. O que se passa é que pesa 500 kg e tem umha velocidade máxima de 80 km/h, que é suficiente para umha grande parte do trânsito rodado.

Ao mesmo tempo, devemos levar o desenho ecológico ao máximo. É necessário elaborarmos produtos de uso diário facilmente reparáveis, reutilizáveis, modulares, com umha vida útil mais longa, feitos dum único material, e nom de materiais compostos, etc. Temos que aceitar produtos um pouco menos eficientes, leves, estéticos.

Por último, a maneira em como se produzem esses bens é igualmente crucial. A produçom industrial mundial está organizada de maneira que umhas poucas fábricas produzem enormes quantidades de mercadorias. O trabalho humano reduze-se cada vez mais, substituído pela mecanizaçom, por robots e em breve por drones. Em vez disso, precisa-se relocalizar umha parte da produçom, recuperar a escala territorial, as pequenas empresas, as oficinas, o artesanato, ou seja, um tecido industrial e comercial a escala humana.

Isto conduz inevitavelmente à questom – espinhosa, mas inevitável – do proteccionismo e da escala territorial da protecçom. Sejamos realistas nisto: umha indústria química local, nacional ou mesmo europeia, com padrões ambientais elevados e que incorpore plenamente o custo de carbono emitido, podia fazer face a indústria do gás de xisto estado-unidense? Ou ao gás “gratuito” do Catar? As explorações pecuária de dimensom média, como poderiam competir com a produçom brasileira e com as galinhas mergulhadas em cloro? Nom chega a lógica do “consumidor responsável”, é preciso dotar-se das ferramentas regulamentares e normativas que permitam emergirem e prosperarem melhores soluções.

Como pode a civilizaçom ocidental se tornar “tecnicamente sustentável”?

Antes de mais focando-se na sobriedade, e implantando em paralelo soluções inteligentes. É necessário reduzir o nosso consumo de energia –nom apenas electricidade– em 75-80%. Precisamos também implementar um mix energético ajeitado de energias renováveis com, por exemplo, energia solar térmica –para obtermos água quente–, energia fotovoltaica, energia eólica, micro-hidráulica e biogás.

Principalmente, cumpre aceitarmos as limitações derivadas da produçom intermitente de energia, reconectando com os ritmos da natureza, caso contrário seria necessário instalar umha capacidade excedentária enorme, e o sistema de armazenamento correspondente, e, além do mais, que todo isto dure no tempo. Tendo em conta o consumo de recursos nom renováveis, em parte nom recicláveis, que isto ocasionaria. Um tal cenário industrial nom seria sustentável, e em absoluto generalizável a nível planetário.

A economia circular vai de vento em popa. Qual a sua opiniom?

A economia circular lembra-me muito o desenvolvimento sustentável, e como ele vai ficar sem gás, qual balom furado. A economia circular é um conceito muito vago, tam vago que toda a gente fica incluída: cidadaos, associações, indústrias, multinacionais, políticos, etc. É por isso que está na moda; nom existe umha definiçom estabilizada, cada quem interpreta-a como quer, e mesmo aproveita-se para “reciclar” alguns conceitos antigos: ecologia industrial, economia da funcionalidade, economia da partilha…

Segundo a definiçom da ADEME (Agência do ambiente e do controlo da energia), a economia circular é um sistema económico que visa aumentar a eficiência da utilizaçom de recursos em todas as fases do ciclo vida dos produtos. Ou seja, “fazer mais com menos”. É bonito, mas utópico, porque nom sabemos dissociar plenamente o crescimento do PIB do consumo material e da poluiçom.

Seria preferível: “fazer um pouco menos com muito menos”! Como os ritmos de extracçom dos recursos naturais e o volume de emissom de gases de efeito estufa atingem níveis exorbitantes, deveríamos pisar o freio com força o antes possível, e da forma mais inteligente possível, tentando manter o essencial do nosso “conforto”.

Quais som, na sua opiniom, os limites da reciclagem?

A reciclagem tem três limites, um menor (a curto prazo) e dous maiores. O menor, como tem percebido acertadamente o economista Nicholas Georgescu-Roegen, é o desgaste ligado a segunda lei da termodinâmica: nunca se recicla o 100%, sempre há perdas.

Lixo electrónico. (Foto de Volker Thies para a  Wikipedia CC BY-SA 3.0).

Lixo electrónico. (Foto de Volker Thies para a Wikipedia CC BY-SA 3.0).

O primeiro limite maior é a existência das ligas. Os metais nom se utilizam na sua forma pura; o usual é misturar pequenas quantidades de metal com um ou dous “grandes” metais: por exemplo, no aço para melhorar a sua qualidade; mas também para obter os latões, ou ligas “high tech” em quantidades muito pequenas nos aparelhos electrónicos. Segundo as misturas, e en funçom das quantidades, umha parte do material nom é recuperável no fim da vida. Amiúde os metais nom-ferrosos ou preciosos som recuperados fisicamente, mas perdem-se funcionalmente. Há também umha degradaçom do uso: um aço reciclado nom recupera a sua utilizaçom original e servirá, por exemplo, para fabricar as armaduras para o betom armado.

O segundo limite maior na reciclagem, é a utilizaçom dispersiva. Os metais nom sempre se usam em forma metálica, amiúde empregam-se como produtos químicos. O caso mais emblemático é o titânio, que em 95% dos casos usa-se como pigmento branco universal, em cosméticos, plásticos, etc. O cobalto usa-se para obter pigmentos azuis, o cromo para obter os verdes e os amarelos, etc. Outro exemplo: o antimónio emprega-se nos produtos electrónicos como um retardador de chama. O estanho e o cobre estám presentes nas tintas anti-algas para barcos, etc. Ora, é quase impossível recuperar estes metais dispersos.

Finalmente, os “grandes” metais industriais (como o alumínio, o cobre, o níquel, etc.) som reciclados além de 50% –e mesmo até 95% pelo menos para o chumbo. Mas para os metais especiais, usados em quantidades muito pequenas ou em ligas –como muitos metais que se utilizam em aparelhos electrónicos, ou as terras raras–, as taxas de reciclagem ficam amiúde entre 1 e 10%.

Se a fuga para a frente energético-mineira continua, quais poderiam ser as conseqüências geopolíticas e sócio-políticas?

Temos que enfrentar a realidade, a situaçom vai piorar. Os nossos líderes políticos fingem pisar o freio com um discurso tranqüilizador sobre o desenvolvimento sustentável, entanto carregam a fundo no acelerador! Basta olharmos para os apelos à inovaçom, os subsídios atribuídos, todos os projectos que surgem concernentes à nanotecnologia, à biologia sintética, ao digital, aos aparelhos conectados, à robótica, etc. Toda a gente maravilha-se diante de todas estas novidades, mas o caminho que estamos a seguir é, de facto, mortal. Quer do ponto de vista do consumo de recursos e energia, quer da geraçom de resíduos electrónicos impossível de gerir.

Quais conseqüências disso? As tensões geopolíticas em torno dos recursos minerais som menos evidentes do que as relativas aos recursos energéticos. Porém, um nacionalismo mineiro emerge na China, na Austrália, na Rússia. Provavelmente, nos próximos anos, a França vai manter boas relações com esses países, assim como com o Brasil e a África do Sul. Mas nom somos imunes a novos períodos de tensom, como os do anos 2006 a 2008, quando subiu o preço do petróleo e com ele os dos metais.

Na França há cada vez mais pessoas cientes de que os recursos mundiais som limitados e que será necessário compartilhá-los entre umha populaçom em crescimento. Do ponto de vista estritamente socioeconómico, isso só pode levar a um aumento no preço desses recursos e, portanto, a umha inflaçom geral de preços. Mas evidentemente, sem a subida dos salários e do poder de compra equivalentes. Já que, em geral, vai ser preciso pagar mais polas matérias-primas, essencialmente importadas, enquanto a concorrência da mao-de-obra seguirá a manter a pressom sobre os rendimentos do trabalho.

Se nom sabermos prescindir destes recursos energéticos e mineiros –pola sobriedade e umha melhor reciclagem– vai haver um empobrecimento, progressivo mas inevitável, da populaçom. Ao ver as clivagens e tensões que sofre a sociedade francesa, e a sensaçom de empobrecimento compartilhada por mais e mais pessoas, nós estamos a tomar esse caminho, e tentar mantermos o status quo industrial e económico actual promete grandes frustrações e um incremento da instabilidade política.

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