Crise do leite : um ponto de vista francês

Nesta semana os produtores de leite galegos pressionárom com os seus tractores nas ruas de Lugo e Santiago. Nom estavam sós, nas últimas semanas os tractores invadírom as ruas de várias cidades europeias, concentrando-se finalmente em Bruxelas, onde tivo lugar um conselho agrícola extraordinário, no qual se aprovárom medidas de ajuda aos agricultores em crise, mas que nom contentárom ao sector.
     Com freqüência ao falar do leite na Galiza fai-se mençom da França; que se os malditos gabachos fam dumping, que se eles si que sabem como trabalhar, que se os gandeiros franceses estám bem protegidos polo seu estado, etc. Por isso consideramos interessante dar a conhecer um ponto de vista francês sobre o problema, e traduzimos umha esclarecedora entrevista de Marie Astier a André Pflimlin publicada pola Reporterre a 7 de Setembro de 2015. O entrevistado, antigo engenheiro do Institut de l’elévage (Instituto de pecuária), é autor dum importante livro sobre o tema: Europe laitière (Europa leiteira. Valorizar todos os territórios para construirmos o futuro).

Crise do leite : “Ampliar as explorações nom é a soluçom”

Andre Pflimin, autor de Europe Laitière

Andre Pflimin, antigo engenheiro do Institut de l’elévage.

Reporterre ‒ Como se originou a crise do leite?
André Pflimlin ‒ Em 2014, houvo umha combinaçom de três factores favoráveis: um bom ano para a forragem, uns preços dos cereais ‒portanto da alimentaçom do gado‒ baixos, e em paralelo um preço do leite elevado, que atingiu os 400 euros por tonelada (~0,41 €/l) a nível mundial. Como conseqüência os agricultores europeus produzírom mais leite, e a Europa acabou produzindo seis milhões de toneladas adicionais, com as que nom se contava, imediatamente antes do fim das quotas.
     Ao mesmo tempo, a procura tem diminuído. China compra menos, e isso vai durar, porque está em plena crise bolsista e está a passar por dificuldades económicas. O embargo da Rússia vai continuar. Putin nom tem pressa para o levantar, porque está a investir muito dinheiro para desenvolver a sua própria produçom leiteira e porcina.
     No entanto, com o fim das cotas ‒A UE deixou de regular os volumes de produtos lácteos desde 1 de Abril 2015‒, continuamos a produzir mais. Os produtores querem aumentar a sua parte do mercado, arriscando vender com perdas. A Irlanda e os Países Baixos aumentaram a sua produçom em 10%. Em Maio e Junho, a Uniom Europeia produziu 4% mais de leite, ultrapassando a produçom recorde de 2014. Nom há controle.

Houvo falta de preparaçom do final de quotas?
A UE apostou num mercado global em expansom. Em meados dos anos 2000, a FAO anunciou que cumpriria dobrar a produçom mundial de leite até 2050. Portanto, a Comissom Europeia estimou nom ser já necessário proteger o nosso mercado, e programou o fim das quotas com tempo para se adaptar. Porém nom se tomou nengumha medida para defender eventualmente aos produtores, e hoje em dia ficárom sem protecçom frente ao mercado global. Enquanto que nos Estados Unidos estabeleceu-se um sistema de ajudas ao produtores, para os compensar polas perdas de rendimentos se o preço do leite ficar muito baixo.

Relançar as exportações, é o caminho para sair da crise?
Orientar-se para a exportaçom é umha aberraçom. Apenas 15% do leite europeu sai das nossas fronteiras, mas é esse 15% que liga os preços europeus aos globais.
     O levantamento do embargo russo seria umha soluçom a curto prazo para recomeçar a vender, mas o efeito nom seria espectacular, já que continuamos a vender à Rússia, mais discretamente, via a Bielorrússia e outros países vizinhos.
     Além disso, em mercados como a Rússia e a China, estamos a competir com a Nova Zelándia, que tem rebanhos dez vezes maiores e pastagens durante todo o ano. Nom podemos produzir mais barato do que eles.

Na França, se escutarmos à FNSEA ‒o principal sindicato agrícola‒, o problema é as nossas explorações nom serem competitivas. Qual é a sua opiniom?

Queijo-Comte

Pedaço de queijo Comté (Da Wikipedia CC-BY-SA-3.0)

Dim-nos que somos menos produtivos porque as nossas explorações som menores. Errado. Em média, há os mesmos custos de produçom por tonelada de leite na França e na Alemanha. Temos mesmo melhor produtividade que na Dinamarca, o campeom europeu em produtividade por vaca e trabalhador, mas que fica no último lugar em termos de renda por produtor!. Apenas os irlandeses tenhem um custo de produçom inferior, mas o seu leite vende-se em pó no mercado mundial.
     Europa faria melhor concentrando-se no seu mercado interno com produtos de qualidade, um exemplo perfeito é queijo com denominaçom de origem Compte, a sua regiom nom está em crise.

Tornar maiores as explorações, nom é essa a soluçom?
Quando entramos na lógica da exportaçom, vem-nos a mente a imagem das grandes estruturas, o modelo das 1000 vacas. Mas no sector leiteiro, nom som estas grandes explorações as que tenhem os menores custos de produçom, porque há poucas economias de escala.
     Para passar de 200 a 1000 vacas, cumpre ter mais equipamentos, mais pessoal e respeitar mais normas ambientais, ter maior capacidade de armazenamento de esterco por exemplo, mais terras nas que aplicar tratamentos, etc. Portanto, nom vamos ser mais competitivos ampliando as explorações. Que é o que dijo o tipo das 1000 vacas: é o metanizador1, graças aos subsídios públicos, o que lhe vai permitir produzir leite mais barato.

Di-se que cumpre investir na modernizaçom das explorações, é essa a prioridade?
É umha fuga para frente. Isso significa menos agricultores, um meio rural valeiro, um ambiente degradado, umha paisagem diferente… Na França vamos de vagar, mas no entanto vamos nessa direcçom, como na Alemanha e noutros países.

Sala de ordenha automatizada

Sala de ordenha automatizada (Da Wikipedia CC-BY-SA-3.0)

O país que mais se nos assemelhava há trinta anos e que evoluiu mais rápido é a Dinamarca. As vacas já nom saem a pastar, os níveis de produçom som muito elevados, a eficiência do trabalho é notável: produzem um milhom de litros de leite por trabalhador. Eles tenhem ora robôs ora vaqueiros ucranianos. Tecnicamente, é impecável. Mas esta reestruturaçom é muito cara; os produtores dinamarqueses som os mais endividados da Europa, talvez mesmo do mundo. O seu sistema é muito eficiente, mas financeiramente muito frágil. A maioria dos produtores estám sobre-endividados, e o sector bancário fragilizado. A situaçom vai-se mantendo graças aos apoios do governo, mas até quando?

Nesta quarta-feira, os ministros de agricultura da Espanha, Itália, Portugal e França vai pedir medidas de intervençom para apoiar os preços do leite. Qual será, na sua opiniom, a eficácia destas medidas?
O que eles pedem é um aumento do ”preço de intervençom”. Quando o preço do leite cai abaixo de aproximadamente 220 € por tonelada, a UE o compra e o armazena. Eles desejariam aumentar esse preço para 260 ou 280 euros por tonelada. Se este aumentar fortemente, grandes quantidades de leite ‒em forma de leite em pó e manteiga‒ poderia ser compradas e congeladas temporariamente.
     Esta é umha soluçom de curto prazo, com efeito imediato. Mas se as medidas prolongarem-se no tempo, podemos nos ver deitando dinheiros num poço sem fundo. Cumpre portanto, acompanhar esta medida dumha reduçom na recolha, para que o sector leiteiro produza menos e os preços podam se recuperar. Seria umha medida temporária, em caso de excedentes de leite.

1 Digestor de resíduos biológico que produz metano.

Traduçom: José Ramom Flores das Seixas

3 thoughts on “Crise do leite : um ponto de vista francês

  1. 15 Setembro, 2015 at 12:55 p.m.

    A UE apostou num mercado global em expansom. Em meados dos anos 2000, a FAO anunciou que cumpriria dobrar a produçom mundial de leite até 2050. Portanto, a Comissom Europeia estimou nom ser já necessário proteger o nosso mercado, e programou o fim das quotas com tempo para se adaptar.

    Un auténticos fenómenos estes da CE. Ou sexa, que cren esas previsións da FAO e non as da AIE acerca do petróleo, p.ex. E non unen os puntiños… O que si parece ver as cousas un pouco menos miopemente é o Putin, reforzando a autosuficiencia alimentar da Rusia. E nós, namentres, deixándonos levar por auténticos criminais dolosos…

  2. 15 Setembro, 2015 at 12:57 p.m.

    Orientar-se para a exportaçom é umha aberraçom.

    Aí falou. Alguén que o estea a ver tan claro por aquí, ou seguimos pensando en ser unha potencia exportadora en leite, enerxía, etc. etc?

  3. 15 Setembro, 2015 at 12:58 p.m.

    Além disso, em mercados como a Rússia e a China, estamos a competir com a Nova Zelándia, que tem rebanhos dez vezes maiores e pastagens durante todo o ano. Nom podemos produzir mais barato do que eles.

    A ver se o compañeiro Afonso se anima a publicar unha moi interesante avaliación que fixera do que pasa alá nas nosas antípodas (en máis dun sentido).

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