Industria petrolífera à beira do colapso?

Agência governamental adverte que a indústria petrolífera global está à beira do colapso

Nom estamos a ficar sem petróleo, mas está a tornar-se antieconómico explorá-lo – outra razom pola qual precisamos de avançar para as renováveis o mais rapidamente possível.

Por Nafeez Ahmed (04/02/2020)                                          Original em inglês
Traduçom: José Ramom Flores das Seixas

Um relatório de pesquisa governamental produzido por Finlândia adverte que a economia cada vez mais insustentável da indústria petrolífera pode fazer descarrilar o sistema financeiro global nos próximos anos.

O novo relatório é publicado pola Pesquisa Geológica da Finlândia (GTK), que opera sob a tutela do Ministério de Assuntos Econômicos do governo. GTK é actualmente o principal coordenador da Comissom Europeia do projecto ProMine da UE, o seu principal banco de dados de recursos minerais e sistema de modelagem.

O relatório foi produzido como um exercício de pesquisa interna para o governo finlandês, que até 2019 exerceu a Presidência do Conselho da Uniom Europeia.

Assinado polo director de pesquisa científica do GTK, Dr. Saku Vuori, o relatório é escrito polo cientista sénior do GTK, Dr. Simon Michaux, da Unidade de Geologia e Economia Mineral do Minério. Ele conduz umha avaliaçom global abrangente da pesquisa científica sobre o estado da indústria global do petróleo com o objectivo de determinar como os riscos de umha lacuna de suprimento global poderiam impactar a mineraçom e a produçom mineral.

O relatório revisto polos pares pede que a Comissão Europeia considere o petróleo como a “matéria-prima crítica” mais importante do mundo. Apesar de oferecer umha crítica mordaz à teoria convencional do pico do petróleo, o relatório chega à chocante conclusom de que a viabilidade econômica de todo o mercado mundial de petróleo pode vir a ser posta em causa nos próximos anos.

Petróleo abundante, caro de mais para extrair

O planalto da produçom convencional de petróleo bruto em Janeiro de 2005 foi um dos desencadeantes da quebra financeira de 2008, de acordo com o relatório. Com a acumulaçom da dívida no sector hipotecário subprime, o planalto do petróleo bruto fijo subir os custos energéticos subjacentes a toda a economia, tornando essa dívida mais difícil de pagar e acabou por resultar em faltas de pagamento catastróficas. O relatório adverte que a dinâmica “nom resolvida” no sistema energético global só foi temporariamente aliviada devido à “Flexibilizaçom Quantitativa” – a criaçom de novo dinheiro polos bancos centrais –, mas é de esperar umha correcçom.

O relatório di que continuamos a ter grandes reservas de petróleo, mas que está a se tornar antieconómico explorá-las. O planalto da produçom de petróleo bruto foi “um ponto de viragem decisivo para o ecossistema industrial”, com o excesso na demanda a ser compensado com combustíveis líquidos, muito mais caros e difíceis de extrair – como o petróleo bruto de fontes submarinas profundas, as areias betuminosas e, especialmente, o petróleo de xisto (também conhecido como “tight oil”, extraído por fracking).

Plataforma petrolífera
Fig.1 – Plataforma flotante Nakika de BP no golfo de México. Amarrada no fundo marino a 1.932 m. (Foto de dominio público)

Estas fontes requerem métodos de extracçom, refinaçom e processamento muito mais elaborados e dispendiosos do que o petróleo bruto convencional, o que tem aumentado os custos de produçom e operaçom.

Porém, a mudança para fontes de petróleo mais caras para sustentar a economia global, revela o relatório, nom só já está minando o crescimento econômico, mas provavelmente se tornará insustentável em seus próprios termos. Em suma, entramos numha nova era de energia cara, que provavelmente desencadeará umha contracçom económica a longo prazo.

Areias betuminosas
Fig 2. Areias betuminosas, Alberta. Canada, 2008.

A quebra que se avizinha

O ‘Quantitative Easing’ ou “flexibilizaçom quantitativa”, consiste em programas maciços de criaçom de dinheiro através dos bancos centrais que compram dívidas governamentais. Mas o relatório adverte que a escalada da QE pode abrir caminho para outro colapso financeiro à medida que os mercados petrolíferos se tornam instáveis, muito provavelmente dentro de meia década.

O papel da QE no apoio à indústria petrolífera e à economia global em geral nom foi previsto na teoria tradicional do pico do petróleo, que nom conseguiu prever os preços baixos do petróleo, os quais ponhem em perigo a rentabilidade. O relatório conclui que: “A era da energia barata e abundante já se passou… A oferta de dinheiro e a dívida cresceram mais rapidamente do que a economia real. A saturaçom da dívida e a paralisia é agora um risco muito real, exigindo umha redefiniçom à escala global”.

Ainda que o mundo precise, portanto, de umha transiçom urgente dos combustíveis fósseis, pode muito bem ser tarde demais para fazê-lo de forma a evitar umha crise económica. E isso exigirá que a civilizaçom industrial, tal como a conhecemos, seja fundamentalmente transformada:

“Para eliminar gradualmente os produtos petrolíferos (e os combustíveis fósseis em geral), todo o ecossistema industrial global terá de ser reestructurado, reequipado e fundamentalmente reconstruído”, observa o relatório. “Este vai ser, talvez, o maior desafio industrial que o mundo tenha enfrentado historicamente”.

O professor Nate Hagens, ex-vice-presidente das empresas de investimento Salomon Brothers e Lehman Brothers, que agora lecciona economia ecológica na Universidade de Minnesota, dixo que “acha o relatório bastante plausível”.

“Mas as nossas instituições, políticas e expectativas ignoram a problemática energética”, dixo-me. Ele acredita que o aviso do relatório sobre umha crise económica futura é muito provável.

“Nós optimizamos baseando-nos no crescimento, o que requer energia fóssil”, dixo ele. “Criamos cerca de 300 bilhões (3 seguido de 14 zeros) de dólares em créditos financeiros, tomando como garantia umha quantidade finita de recursos de alta qualidade. Em resumo, criárom-se demasiadas promessas de energia futura e recursos futuros”.

Do teito do petróleo saudita à bolha do petróleo de xisto

O relatório oferece a primeira avaliaçom governamental pública e independente, concluindo que a Arábia Saudita, outrora o maior produtor mundial de petróleo, está agora provavelmente a aproximar-se (e pode já ter passado) do teito da sua produçom.

O estudo cita a aceleraçom do número de furos, entanto a produçom de petróleo mantem-se desproporcionalmente baixa, como evidência do declínio da produtividade do sector petrolífero saudita. Cita também dados da recente Oferta Pública Inicial da empresa nacional de petróleo, Aramco, indicando que os níveis de produçom do maior campo do país, Ghawar, é inferior em 1,2 milhões de barris ao anteriormente alegado, sugerindo que o campo está a se aproximar da maturidade.

Entretanto, como a Arábia Saudita nom tem conseguido acompanhar a demanda, o xisto dos EUA entrou em cena, representando a maior parte da nova oferta global de petróleo desde 2005, para sermos exactos o 71,4% da nova oferta.

O resto do mercado internacional de petróleo é dominado pola Rússia e polo Iraque, com outros membros do consórcio da OPEP a contribuir globalmente com só 22% da oferta total, apenas o suficiente para cobrir as perdas dos países cuja produçom tem vindo a diminuir.

Umha bolha pronta a rebentar

O relatório adverte que o crescimento da produçom global pode estagnar em breve, devido à duvidosa viabilidade económica da indústria do xisto dos EUA. Enquanto a Arábia Saudita já nom será capaz de aumentar muito a produçom, o sector do petróleo de xisto dos EUA pode estar à beira do colapso devido às enormes dívidas nom pagáveis, declínio das taxas de produçom e má qualidade dos poços.

Se bem à primeira vista a produtividade dos poços de petróleo de xisto tem aumentado, o relatório assinala que isto é às custas de “reduções observáveis na produtividade real”. Assim o aumento da produçom “deve-se a um aumento da perfuraçom lateral por poço e das quantidades de água, produtos químicos e agentes de apoio utilizados”.

Nota: Os agentes de apoio som produtos sólidos, naturais ou sintéticos, que som injectados nas fracturas provocadas na rocha nas operações de fracturaçom hidráulica. Estes agentes de apoio tenhem como funçom produzir umha camada assemade permeável e resistente para manter as fissuras abertas após penetrar nelas. Veja-se a Fig. 3.

Esquema da obtençom do petróleo de xistos
Fig. 3 Obtençom do petróleo de xistos. CC-BY José Ramom Flores das Seixas.

Assim, enquanto a produçom média de poços de petróleo de xisto dos EUA aumentou entre 2010 e 2018 em 28%, no mesmo período a injecçom de água, o uso de produtos químicos e agentes de apoio cresceu em 118%. O qual, segundo o relatório, indica o aumento vertiginoso nos custos de extracçom.

Entretanto, o relatório adverte que a maioria das empresas petrolíferas de xisto tenhem um fluxo de caixa negativo devido a dívidas crescentes e impagáveis. Como resultado, os investidores estám perdendo rapidamente a confiança no sector, que agora está ficando sem dinheiro para sustentar a continuidade das operações num entorno de rentabilidade decrescente.

É difícil de estimar a data exacta do teito da produçom de petróleo de xisto estadounidense, mas o relatório conclui que a dita produçom “ficará provavelmente em declínio terminal nos próximos 5 a 10 anos, sendo mesmo possível ter-se já atingido o teito devido à contracçom do investimento de capital”. Se isso acontecer, significaria nom podermos mais contar com a principal fonte de petróleo por trás do crescimento da produçom global.

De acordo com a World Oil, dous grandes fornecedores de serviços da indústria petrolífera, Halliburton e Schlumberger, acreditam já que, apesar da produçom ter atingido máximos recordes, a extracçom de petróleo de xisto nos EUA já atingiu o seu teito e entrou num período de contracçom prolongada.

Um teito global?

O relatório é muito crítico com a teoria convencional do pico do petróleo, que previa que a produçom global de petróleo atingiria um pico e diminuiria pouco depois de 2000 devido ao esgotamento geológico, levando a umha espiral crescente dos preços do petróleo. Esta abordagem é considerada como “simplista de mais” por ignorar “as interacções complexas e dinâmicas dumha série de questões em torno da indústria petrolífera (principalmente as movimentações geopolíticas e a flexibilizaçom quantitativa)”.

Mas o relatório descarta também a rejeiçom da importância do teito do petróleo, agora tam à moda. Embora ainda haja “muito petróleo”, a sua extracçom é cada vez mais cara.

O actual sistema económico nom pode suportar preços de petróleo acima de 100 $/barril e continuar a crescer, enquanto os produtores da maioria dos novos campos nom pode pagar dividendos com preços baixos, de até 45 $/barril, sem recorrer a empréstimos.

De acordo com o Dr. Michaux, o sistema económico global está, portanto, entre a espada e a parede. “Os preços do petróleo seguiram baixos por algum tempo” – explica –. “O problema é que todos os consumidores em todas as escalas e em todos os sectores estám saturados de dívidas. Os custos estám a subir, enquanto a capacidade de gerar riqueza está a se contrair”.

Isto significa que, embora a indústria petrolífera nom consiga lidar com os preços mais baixos, a economia global nom consegue lidar com os preços altos. “Na actualidade, vejo o teito do petróleo como sendo definido por umha janela de contracçom entre um preço suficientemente alto para manter os produtores em actividade e um preço suficientemente baixo para que os consumidores tenham acesso a bens e serviços derivados do petróleo”, di Michaux.

Como resultado desta combinaçom de desafios geológicos e restrições de mercado, o estudo adverte que um pico global na produçom total de petróleo ora é “iminente” nos próximos anos, ora já aconteceu, possivelmente em Novembro de 2018. Mas a confirmaçom do teito só se pode fazer uns 5 anos após de ocorrer.

Em mais da metade dos países produtores de petróleo a extracçom está decaindo na actualidade, afirma o relatório, com a maior parte da nova produçom concentrada entre apenas seis produtores principais. Ao analisar mais polo miudo, o relatório mostra que estám em declínio cerca de 81% dos campos petrolíferos a nível mundial, com a taxa de descobertas de novos campos petrolíferos a cair para mínimos históricos.

Para compensar esse declínio de maneira a manter a produçom petrolífera mundial estável ao nível actual até 2040, cumpriria adicionar – procedente de novos campos petrolíferos – mais de quatro vezes a actual produçom de petróleo bruto da Arábia Saudita.

Em vez de o fornecimento global de petróleo estar limitado polo volume dos jazigos restantes, como assume a teoria convencional do teito de petróleo, o relatório di que, a limitaçom vem dada “polo volume de cru que é possível extrair com um custo suficientemente baixo”.

Actualmente, a maior parte da expansom da oferta global depende dos Estados Unidos. Com o sector de xisto dos EUA à beira da ruptura, o relatório adverte que a “janela de viabilidade do mercado petrolífero está a se fechar, o que sugere que em breve retomara-se a correcçom de 2008”.

De acordo com o Dr. Hagens, esta nova análise confirma que o “teito do petróleo” é em realidade o “teito do crédito”. Se, de algum jeito, pudermos continuar a endividar-nos, continuaremos a ser capazes de extrair a próxima e mais cara porçom de hidrocarbonetos”.

Mas como os níveis da dívida estám se tornando perigosamente instáveis, isso nom pode continuar por muito tempo; e apenas é um expediente temporário, tornando as taxas futuras de declínio do petróleo mais acentuadas. Eventualmente, a situaçom tornará-se impraticável. Ele argumenta que é a “orgia de crédito global dos últimos 50 anos”, especialmente desde 2008, que tem mantido a aceleraçom do motor de crescimento.

Perguntei-lhe ao Hagens se ele concorda com o veredicto do relatório de um teito geral poder ser iminente, e contestou-me: “Considero-o extremamente plausível”.

Necessidade de um novo paradigma industrial

Dado que estamos “a usar a finança para encobrir esta lacuna biofísica”, acrescentou, isso acabará por nos “conduzir a um pulso deflacionário global”.

Os níveis da dívida global estám agora completamente fora de controlo, di o relatório – encontrando que a criaçom de dívida do governo dos EUA tem sido aproximadamente o dobro da taxa de crescimento económico nos últimos 40 anos. Aumentando o volume da dívida, os países foram capazes de manter o crescimento à medida que os custos da energia subiram. Como resultado, a maioria das economias nacionais tem agora um ratio dívida/PIB superior a 90 por cento, o que significa que precisam se endividar mais apenas para manter as suas economias a funcionar, enquanto seguem a pagar a dívida contraída anteriormente.

Portanto, o crescimento do PIB equivale a umha “miragem alimentada pela dívida”, de acordo com o relatório. Como nom se tem planejado ajeitadamente o abandono gradual dos combustíveis fósseis, é inteiramente possível que, quando a extracçom desses combustíveis, em particular o petróleo, venha a se contrair, podamos testemunhar “o teito da produçom industrial per capita nalgum momento dos próximos anos”.

À medida que se vaia perdendo a confiança nos mercados petrolíferos – exorta o relatório –, o mundo precisa de desenvolver “um sistema energético inteiramente novo, baseado num paradigma completamente diferente”. O relatório apela aos profissionais técnicos e às autoridades políticas para se concentrarem na forma de “criar umha sociedade de alta tecnologia” baseada num menor consumo energético – de origem renovável –, nom dependente no crescimento material infinito. “De nom conseguirmos isto, a alternativa é a degradaçom (e fragmentaçom) do actual ecossistema industrial”.

Em resumo, isto significa a necessidade dumha adopçom extremamente rápida das energias renováveis, juntamente com umha reorganizaçom total no funcionamento das nossas sociedades tendo em mira um vindoiro mundo “sem combustíveis fósseis”.

Todas as grandes nações industriais precisam “trabalhar juntas na transiçom para um modelo energético pós-fossil”, conclui o relatório, alertando: “A alternativa é o conflito.” A civilizaçom industrial terá de “evoluir” em direcçom a “um menor consumo de energia e menos complexidade”, com base numha “reestruturaçom completa do lado da procura das necessidades energéticas”.

Neste momento, porém, “ninguém está a se preparar para isso”, dixo Hagens. “Nom só estamos a acelerar, também andamos de olhos vendados à realidade energética. Porém a dinâmica do nosso actual sistema nos força a falar sobre um sistema maior e nom menor – de jeito que nom se discutem sobre planos e modelos correctos e válidos… É umha tempestade perfeita – e quando as águas recuarem teremos economias menores, mais simples e mais locais, regionais”.

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